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Vício em telas existe? Sinais de alerta e o que diz a ciência

Artovia Labs · · 9 min de leitura

"Ela é viciada no celular." Dá para ouvir isso em quase toda porta de escola. Mas, se você olhar as listas oficiais de diagnósticos médicos, vai ter uma surpresa: o "vício em telas" não está nelas. A lista da Organização Mundial da Saúde inclui um único transtorno ligado às telas, e ele diz respeito aos jogos eletrônicos [1].

Isso quer dizer que não há motivo para se preocupar se seu filho não larga o celular? Não. Mas muda aquilo em que você deve prestar atenção. Vamos descobrir juntos onde fica a linha entre o vício em telas e simplesmente gostar muito de alguma coisa.

Onde fica a linha entre vício e gostar muito de algo?

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde incluiu o "transtorno dos jogos eletrônicos" na nova edição da sua classificação de doenças, a CID-11, que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2022 [1]. A CID (Classificação Internacional de Doenças) é a lista que médicos do mundo todo usam para dar diagnósticos. Leia os critérios com atenção e você encontra a resposta para a pergunta que os pais mais fazem: neles não existe um número de horas.

Em vez disso, eles procuram três sinais [1]:

Esse padrão precisa causar problemas importantes na escola, na família ou na vida social e, em geral, durar pelo menos 12 meses. Se os sintomas forem graves, um período mais curto pode bastar [1].

Imagine duas crianças. Uma joga duas horas todas as noites, mas faz a lição de casa, encontra os amigos e dorme no horário: ela não se encaixa no padrão. A outra joga uma hora por dia, mas há meses deixa de lado a escola, os amigos e o sono por causa do jogo. Mesmo com menos tempo de tela, é ela quem merece um olhar mais atento.

E as horas de vídeo no celular, ou as redes sociais? Existe diagnóstico para isso?

E o celular e as redes sociais?

Não. O outro grande manual de psiquiatria, o DSM-5 (o manual de diagnósticos da Associação Americana de Psiquiatria), incluiu em 2013 apenas o "transtorno do jogo pela internet", e só como uma condição que ainda precisa de mais pesquisas [2]. Não existe diagnóstico oficial de vício em celular ou em redes sociais.

Mas não ter diagnóstico não quer dizer que não exista problema. Os pesquisadores usam o termo "uso problemático do celular" (ou do smartphone): um uso que atrapalha a vida diária e é difícil de interromper. Uma revisão que reuniu 41 estudos com 41.871 crianças e jovens encontrou esse padrão, em média, em cerca de 1 em cada 4 deles [4]. O uso problemático aparecia mais junto com depressão, ansiedade e sono ruim, mas isso é uma associação: não mostra o que causa o quê.

O que levanta uma pergunta óbvia: afinal, é 1 em cada 4 ou 3 em cada 100? Existe um motivo para os números serem tão diferentes.

Isso é comum? E por que os números variam tanto?

Há manchetes dizendo que metade dos adolescentes é viciada, e especialistas dizendo que isso é exagero. Uma revisão que juntou 53 estudos com mais de 226.000 pessoas em 17 países ajuda a explicar a diferença [3].

Ela encontrou o transtorno dos jogos eletrônicos em cerca de 3% dos participantes no mundo. Quando a análise ficou restrita aos estudos com métodos mais rigorosos, os que representam melhor a população, o número caiu para cerca de 2% [3]. O que mais pesava nos números era a própria forma de medir: qual questionário e qual nota de corte cada estudo usava. As taxas eram maiores entre adolescentes e cerca de 2,5 vezes maiores em meninos do que em meninas [3].

Então "1 em cada 4" e "3 em cada 100" não se contradizem. O primeiro número descreve um padrão amplo de uso que complica o dia a dia; o segundo, uma condição restrita, que preenche os critérios de diagnóstico. O que a maioria das famílias enfrenta está mais perto do primeiro. A boa notícia é que dá para fazer muita coisa em casa.

O que você pode fazer em casa?

  1. Proteja o sono primeiro. Deixe a hora antes de dormir sem telas e carregue os aparelhos fora do quarto durante a noite [5]. O sono é uma das coisas que mais aparecem prejudicadas junto com o uso problemático [4].
  2. Combine as regras antes, não no meio de uma birra. A AAP (Academia Americana de Pediatria) recomenda que as famílias escrevam juntas suas regras de uso das telas e as apliquem com constância [6]. Se o "quando, por quanto tempo e onde" já está decidido, vocês não precisam discutir isso toda noite.
  1. Planeje o que vai ocupar o lugar da tela. O teste da AAP é que as telas não tomem o lugar do sono, da atividade física e do tempo em família [6]. Decidam juntos o que preenche esse tempo: um esporte, encontrar um amigo ou uma tarefa feita em conjunto em casa. Mostramos a que habilidades as tarefas de casa estão ligadas nas crianças no nosso guia sobre tempo de tela por idade.
  2. Olhe para os seus próprios hábitos. A AAP incentiva os pais a dar o exemplo de um uso saudável das telas [5, 6]. Nada de celular na mesa do jantar pode ser uma regra para todo mundo.
  3. Converse sem culpar. Pergunte ao seu filho o que o atrai no jogo ou nos vídeos. Esse também é o jeito mais fácil de entender a gravidade da situação.

O momento em que essas regras são mais testadas é a hora de desligar a tela.

Por que desligar a tela é tão difícil?

Um estudo americano com famílias de crianças de 1 a 5 anos olhou de perto esse momento: os pesquisadores entrevistaram 27 pais e mães, e outras 28 famílias mantiveram um diário durante duas semanas [7].

O primeiro resultado tranquiliza: quando o tempo de tela acabava, as crianças reagiam de forma neutra em 59% das vezes e de forma positiva em 19%; 22% das reações foram negativas [7]. O segundo surpreende. Avisos antecipados como "faltam dois minutos" não deixaram a transição mais fácil, e sim mais difícil: as crianças que recebiam o aviso ficavam mais chateadas quando a tela saía de cena [7].

As transições tranquilas tinham pontos em comum. Corriam melhor quando desligar a tela fazia parte de uma rotina diária, ou quando o jogo ou o vídeo chegava a um fim natural. As transições encerradas pela tecnologia, e não pelos pais (a bateria acabando, por exemplo), foram mais suaves [7].

O estudo olhou para crianças pequenas; ele não mediu como os avisos afetam crianças em idade escolar. Mesmo assim, os resultados sugerem três coisas para casa. Mantenha o horário de término igual todos os dias e, quando der, encerre no fim de um episódio ou de uma partida. E deixe que uma regra combinada antes decida quando acabou, e não uma decisão tomada na hora.

E se, depois de meses, as coisas continuarem sem melhorar?

Quando procurar ajuda?

Se as situações abaixo acontecem juntas e já duram meses, converse com o pediatra ou com um profissional de saúde mental da infância e da adolescência [1]:

Esses são os critérios de diagnóstico da OMS em linguagem do dia a dia. Só um profissional pode fazer um diagnóstico.

Perguntas que os pais costumam fazer

Meu filho fica bravo quando o jogo acaba. Isso é vício?

Não, se for só isso. Os critérios procuram um padrão que dura meses e atrapalha a vida, e não uma reação isolada [1]. Se encerrar o tempo de tela é difícil todos os dias, combinar antes quando ele vai terminar, e manter isso igual todo dia, segue a orientação da AAP de limites aplicados com constância [6]. No estudo com crianças pequenas, as transições que faziam parte de uma rotina também correram melhor [7].

Existe diferença entre meninos e meninas?

O transtorno dos jogos eletrônicos é cerca de 2,5 vezes mais comum em meninos do que em meninas [3]. Mas essa diferença foi medida só para jogos. Não dá para dizer o mesmo sobre o uso problemático do celular ou das redes sociais; nesse caso, observar os sinais orienta melhor do que olhar para o gênero.

O essencial

"Vício em telas" é uma expressão comum, mas a condição que a medicina reconhece é mais restrita: meses de perda de controle e um uso que atrapalha a vida. O que a maioria das famílias enfrenta é mais comum e tem solução em casa. E a peça mais importante dessa solução muitas vezes passa despercebida: o sono.

Explicamos como as telas afetam o sono, e por que o celular não deveria nem ficar no quarto à noite, no nosso guia sobre telas e sono.

Fontes

  1. World Health Organization. ICD-11, 6C51 Gaming disorder, e página de perguntas e respostas. who.int
  2. American Psychiatric Association (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5), Section III: Internet Gaming Disorder.
  3. Stevens M. W. R. et al. (2021). Global prevalence of gaming disorder: A systematic review and meta-analysis. Australian & New Zealand Journal of Psychiatry, 55(6). PubMed
  4. Sohn S. Y. et al. (2019). Prevalence of problematic smartphone usage and associated mental health outcomes amongst children and young people. BMC Psychiatry, 19. doi:10.1186/s12888-019-2350-x
  5. AAP Council on Communications and Media (2016). Media and Young Minds. Pediatrics, 138(5), e20162591. doi:10.1542/peds.2016-2591
  6. AAP Council on Communications and Media (2016). Media Use in School-Aged Children and Adolescents. Pediatrics, 138(5), e20162592. doi:10.1542/peds.2016-2592
  7. Hiniker A., Suh H., Cao S., Kientz J. A. (2016). Screen Time Tantrums: How Families Manage Screen Media Experiences for Toddlers and Preschoolers. Anais da CHI 2016, 648–660. washington.edu

Este artigo traz informações gerais e não substitui orientação médica. Se você está preocupado com a saúde do seu filho, converse com o pediatra. Escrito por Artovia Labs, criadora do Minu, com base nas fontes publicadas listadas acima.